Pra que amar? Essa foi a pergunta que Jacque se fez enquanto arrumava os cabelos. Prendeu ao alto da cabeça as madeixas negras. Alguns fios soltos foram se grudando na pele cor-de-rosa da moça enquanto mergulhava seu corpo nu na banheira de espuma. Seus olhos olhavam pra algum lugar na parede, olhavam para o nada enquanto ela se perdia em pensamentos.
Pra que? Se perguntava a todo instante. Pra que se apaixonar, e sofrer. Por que até então não conseguia se lembrar de nenhum amor que vivera e que fora de tudo bem sucedido. Não conseguia entender. Ela passava a esponja cheia de espuma pelo corpo caminhando por cada curva do seu corpo e se lembrando de cada olhar, de cada suspiro que soltara em tempos passados. Amor, paixão, sentimentos que lhe surgiram e lhe deixaram marcas.
Amores que passaram, e cada um com sua importância a deixou madura. Chorava e questionava a todo tempo, em todos os casos, em todas as vezes, o porquê, o porquê de sentir sentimentos que a deixava tão triste. Sentimentos que por vez jamais fora correspondida.
Talvez esse fosse o verdadeiro sentido de amor: amar, sofrer, e não ser amado. Talvez esse fosse o motivo pelo qual o mundo consagra tantos romances mal acabados, em que o mocinho morre no fim, ou que é proibido por algum motivo qualquer.
Em todos, Jacque se lembrava. Dos sentimentos, cada um íntimo de suas características, do cheiro, dos gostos. E já do primeiro quando se lembra, sorri. Era simplesmente Diego, causando toda aquela turbulência nos seus pensamentos. Um amor de menina, de apenas 15 anos que foi forte suficiente pra durar por um ano. Ele trabalhava na escola onde ela estudava Inglês, e era o principal motivo por Jacque nunca ter faltado às aulas durante os 3 anos de curso.
Sua pele era de toda branca, como uma seda que envolvia seu corpo. Alto e com um corpo de chamar atenção até mesmo de mulheres mais velhas. Devia ter uns 23 anos aparentando ter quase trinta. É. Realmente sempre gostara de homens mais velhos. Não sabia como explicar estar hoje com alguém apenas um ano mais velho que ela.
Diego sorria e Jacque se derretia. Pra piorar a situação, ele tinha uma namorada, que mais tarde Jacque descobre que era a prima da melhor amiga! E pra piorar mais ainda, ele sempre retribuía os olhares de Jacque no fundo de seus olhos negros como uma jaboticada.
Mais tarde, ela se encontrava com seu pai e ele logo vinha com aquele comentário de que Diego lhe chamara de sogro na manhã em que fora pagar a mensalidade da escola.
Mas o Tempo passou, e a dor da perda de alguém muito importante na vida de Jacque fez com que ela se esquecesse daquele amor de menina.
E depois quando se encontrou casualmente com o rapaz, quase dois anos depois, em uma dessas festas que Jacque gostava de freqüentar, ele finalmente quis tocar seus lábios. Mas a moça depois de um longo beijo disse alguma coisa e saiu dali.
Sorriu. Jacque sorriu naquele dia e agora, ao se lembrar desse fato enquanto alisava sua pele com espuma. Nunca mais voltou a sentir aquilo por Diego.
Com aquele beijo ele apenas fez surgir um sentimento de “pronto, agora eu provei!”.
Mais um amor na memória de Jacque, que se foi, mas ficou ali dentro dela, como uma experiência a mais que foi vivida: amou um homem durante tanto tempo, sem pelo menos ter tocado seus lábios. A doçura de um amor puro e ingênua de menina.